O TEXTO NONSENSE DE JOHN LENNON

Usando uma linguagem estranhamente criativa para nos contar estórias inesperadas e absurdas, John Lennon publicou no auge da juventude, no apogeu da beatlemania (1964/65), dois livros de pequenos contos e poemas ao estilo da literatura chamada nonsense. Era o jovem compositor tentando, de uma certa forma, "se livrar" das letras românticas e ingênuas das suas músicas, procurando novas maneiras de expressar.
As canções dos Beatles e o ativismo político de Lennon fizeram parte da história da segunda metade do século XX, um tempo repleto de conflitos e grandes transformações. Por isso é tão surpreendente esta outra faceta do talento de Lennon, que muito poucos conhecem.
Em In his own write (1964) e A spaniard in the works (1965), ambos publicados no Brasil pela Editora Brasiliense, com a tradução de Paulo Leminski, Lennon apresenta um texto totalmente independente da poesia que o consagrou na área musical. Como todo gênio, o beatle era um artista múltiplo: atuou, ainda que ligeiramente, no cinema,  desde a infância gostava de desenhar e ainda se arriscou a escrever estes dois livros de devaneios e humor em verso e prosa.
As narrativas são muitas vezes confusas e mirabolantes, "quase" sem sentido, com óbvia influência de Joyce e Carroll. Os ingleses, aliás, apreciam muito este tipo de linguagem galhofeira, onde todas as lógicas são pensáveis e possíveis. No Brasil, alguns cantadores folclóricos desenvolveram esse estilo de discurso desbaratado, que tem alguma afinidade com o chamado “bestialógico” de Zé Limeira, Cego Aderaldo e Bernardo Guimarães.
Na linguagem de TV, Renato Aragão também usava muito o recurso de modificar sons e letras para criar novas palavras, com uma fonética engraçada. O humor pode estar na fluência da métrica, nas brincadeiras semânticas ou nas rimas inesperadas.
Neste tipo de texto, a coerência rítmica tem preferência sobre a coerência lógica ou ortográfica. Segundo Leminski, "Lennon não escreve errado; ele escreve erros". Além de deformações vocabulares, há também brincadeiras misturando palavras de outros idiomas, sempre com um senso de humor desmedido.
O grande Leminski teve a coragem sobre-humana de aceitar este desafio e demonstrou gigantesco talento ao cumprí-lo, traduzindo os dois livros de Lennon para o português. Certas metáforas poéticas só podem ser compreendidas em seu idioma original e os detalhes próprios de uma língua, com as sutilezas da cultura de cada povo, são muitas vezes intraduzíveis, especialmente nesse caso, onde prevalece o "vale-tudo" das palavras.
Mas o trabalho primoroso do também genial Leminski conseguiu realmente o impossível, proporcionando aos leitores dos países de língua portuguesa uma idéia muito aproximada daquilo que John Lennon pretendeu expressar.